Ambientes ventilados e máscara: o que fazer para não pegar Covid

 Ambientes ventilados e máscara: o que fazer para não pegar Covid

Foto: Juan Medina/Reuters

Abra suas janelas: o combate ao coronavírus deve ter foco em evitar a transmissão pelo ar, ventilando ambientes. Isso é o defendem quatro pesquisadores do Reino Unido, Estados Unidos e Hong Kong em um artigo publicado nesta quarta-feira (14) na revista científica “British Medical Journal”, uma das mais importantes do mundo.

Mantenha a distância de outras pessoas. Pessoas infectadas com o Sars-CoV-2 produzem muitas pequenas partículas respiratórias carregadas de vírus quando expiram. Quanto mais perto da pessoa, maior a chance de você pegar o vírus. Em ambientes fechados, manter uma distância de 2 metros pode não ser suficiente para evitar o contágio.

Ventile os ambientes. Se você está em um ambiente fechado ou mal ventilado onde há alguém infectado, as partículas que carregam o coronavírus podem ficar suspensas no ar por um bom tempo — inclusive depois que a pessoa infectada foi embora. Garantir a troca ou a purificação do ar é essencial.

Use boas máscaras. Dê preferência a máscaras que possuam alta capacidade de filtragem. Um exemplo deste tipo de máscara são as PFF2.
Ajuste bem a máscara. Mesmo boas máscaras podem perder a capacidade de proteção se não estiverem bem ajustadas ao rosto. Garanta que a máscara não tenha folgas pelas quais o ar possa sair (e, consequentemente, entrar com o vírus).

Os autores que assinam o artigo são Julian W. Tang, consultor de virologia e professor de ciências respiratórias na Universidade de Leicester, na Inglaterra; Yuguo Li, professor titular de engenharia mecânica da Universidade de Hong Kong; Linsey Marr, professora de engenharia na Virginia Tech, nos Estados Unidos, especialista em transmissão aérea de vírus, qualidade do ar e nanotecnologia, e Stephanie J. Dancer, professora de microbiologia na Universidade Edinburgh Napier, na Escócia.

Abaixo, entenda um pouco mais sobre por que eles defendem as medidas acima como necessárias para evitar a transmissão do coronavírus pelo ar:

1. Mantenha distância
Mulher anda com neto na praia em Delaware, nos Estados Unidos, no dia 2 de janeiro. — Foto: Mark Makela/AFP
Mulher anda com neto na praia em Delaware, nos Estados Unidos, no dia 2 de janeiro. — Foto: Mark Makela/AFP

Pessoas infectadas com o Sars-CoV-2 produzem muitas pequenas partículas respiratórias carregadas de vírus quando expiram. Algumas dessas partículas serão inaladas quase imediatamente por aqueles que estiverem a uma distância curta, de 1 metro ou menos, que normalmente é a mantida entre duas pessoas que estão conversando.

O resto das partículas se dispersa em distâncias mais longas, podendo ser inalado por pessoas a mais de 2 metros de distância. O risco de isso acontecer é maior em ambientes internos e mal ventilados (entenda mais no tópico 2).

“Embora isso possa acontecer a uma longa distância, é mais provável quando [se está] perto de alguém, pois os aerossóis entre duas pessoas são muito mais concentrados a uma curta distância — como estar perto de alguém que está fumando”, dizem os pesquisadores no artigo.

2. Ventile os ambientes
Em locais fechados e mal ventilados, as partículas expelidas por uma pessoa doente ficam mais tempo em suspensão, ao invés de evaporarem ou serem dispersadas. Se essas partículas forem inaladas por outra pessoa, no mesmo ambiente, ela se contamina.

É assim que funciona a transmissão pelo ar – o contágio sem que se tenha contato direto com uma pessoa infectada. As partículas também podem contaminar outras pessoas mesmo depois que a pessoa infectada já foi embora.

Por isso, mecanismos que possibilitem a troca ou purificação do ar ambiente se tornam muito mais importantes. Isso significa abrir janelas ou instalar ou atualizar sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado, dizem os cientistas no artigo.

“As pessoas têm muito mais probabilidade de se infectar em uma sala com janelas que não podem ser abertas ou sem sistema de ventilação”, reforçam Tang e colegas.

A cientista Melissa Markoski, professora de biossegurança da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), dá um exemplo de situação possível:

“Você pode ter uma pessoa infectada em um local – vamos pensar numa situação de um escritório, um consultório odontológico, médico. A pessoa infectada sai, outra entra e acha que, porque ela está sozinha no ambiente, pode ou tirar a máscara ou não utilizar adequadamente. E ela pode se contaminar com esses aerossóis que ficam no ar”, explica.

Para o engenheiro biomédico Vitor Mori, pesquisador da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, a menção à ventilação feita pelos autores é muito importante.

“Ventilação é a medida de prevenção mais importante. Em espaços fechados e mal ventilados, 2 metros de distanciamento não é sempre suficiente, justamente porque essas partículas leves com o vírus que ficam em suspensão se espalham rapidamente num ambiente fechado. Ventilar os espaços garante que essas partículas sejam levadas para um ambiente externo e rapidamente diluídas, e que ar fresco entre no ambiente”, explica.

Markoski reforça a recomendação.

“Às vezes as pessoas ficam com medo de deixar a janela aberta e de entrar aerossol da rua. Não, pelo contrário, você está ajudando a dispersar aquele ar potencialmente contaminado daquele ambiente”, afirma a professora.
Para Mori, não levar em conta a transmissão pelo ar tem levado a políticas de saúde pública equivocadas para o combate à pandemia.

“Reforçamos muito a limpeza de superfícies e a higienização das mãos, mas praticamente não falamos de ventilação e da importância de espaços abertos. Ainda há uma enorme e injustificada insistência com a transmissão por superfícies”, avalia.

Entenda por que ventilar ambientes é mais importante do que limpar compras

“O que mais estamos vendo é a implementação de protocolos equivocados, uma comunicação absolutamente falha sobre as medidas de prevenção e uma responsabilização da população pelo fato de as medidas de controle não darem certo”, acrescenta.

No artigo desta quarta (14), Tang e colegas reforçam que a transmissão do vírus por superfícies é “relativamente mínima”.

3. Use boas máscaras
Além da ventilação, a segunda forma crucial de evitar a contaminação pelo ar é usando boas máscaras, dizem os cientistas.

“Uma segunda implicação crucial da propagação [do vírus] pelo ar é que a qualidade da máscara é importante para a eficácia de proteção contra aerossóis inalados”, afirmam os pesquisadores.

Mas o que é uma boa máscara?

Ela precisa ter, basicamente, uma boa capacidade de filtragem e um bom ajuste ao rosto (veja detalhes sobre ajuste no tópico 4). Um exemplo de máscara com essas características são as PFF2.

4. Ajuste bem a máscara ao rosto

A máscara não pode ter folgas pelas quais o vírus possa entrar, lembram Tang e colegas.

“A maioria [das máscaras] é pelo menos parcialmente eficaz contra a inalação de aerossóis. No entanto, tanto a alta eficiência de filtração como um bom ajuste são necessários para aumentar a proteção contra aerossóis, porque partículas minúsculas transportadas pelo ar podem encontrar um caminho e entrar por quaisquer folgas entre a máscara e o rosto”, frisam.

Vitor Mori explica:

“Justamente pela transmissão ser pela inalação e não pela deposição de partículas, o tipo de máscara importa e o quão bem vedada ela está no rosto também. Se a máscara não estiver bem vedada ao rosto – que é o caso das cirúrgicas e das de pano – o ar acaba entrando pelos vãos entre a máscara e o rosto. O ar sempre vai procurar o caminho de menor resistência”, diz.

“E, justamente por isso, equipamentos de proteção individual para proteção respiratória, como respiradores PFF2, são muito mais eficientes”, pontua.

Aqui entra também uma discussão que vem ocorrendo desde o ano passado: o tamanho das partículas capazes de carregar o coronavírus. Isso importa porque, quanto menores elas são, mais difíceis são de filtrar e mais facilmente passam por essas brechas.

“Se o vírus fosse transmitido apenas por partículas maiores (gotículas) que caem no solo dentro de um metro ou mais após a expiração, o ajuste da máscara seria menos preocupante”, afirmam Tang e colegas.

Os procedimentos de geração de aerossóis, como a intubação de pacientes, são uma das únicas formas reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de transmissão pelo ar do coronavírus. Tradicionalmente, os aerossóis são definidos como partículas menores do que as gotículas, mas, no artigo, Tang e colegas defendem que qualquer partícula inalável pode ser vista como um aerossol.

“Essencialmente, se você puder inalar partículas – independentemente do seu tamanho ou nome – você, está respirando aerossóis. Do jeito que [a transmissão] ocorre [de fato], profissionais de saúde que usam máscaras cirúrgicas foram infectados sem se envolver em procedimentos de geração de aerossol”, afirmam.

“À medida que a propagação do Sars-CoV-2 é totalmente reconhecida, nossa compreensão das atividades que geram aerossóis exigirá uma definição mais aprofundada. Cientistas de aerossóis têm mostrado que até mesmo falar e respirar são procedimentos geradores de aerossóis”, dizem os cientistas.

Melhorar a qualidade do ar

Os pesquisadores também dizem que é essencial melhorar a qualidade do ar em ambientes fechados, inclusive para combater o vírus longo prazo – e outras infecções respiratórias.

“Sistemas mais novos, incluindo tecnologias de limpeza e filtragem de ar, estão se tornando cada vez mais eficientes. A Covid-19 pode muito bem se tornar sazonal e teremos de conviver com ela como fazemos com a gripe. Portanto, os governos e os líderes de saúde devem dar atenção à ciência e concentrar seus esforços na transmissão pelo ar”, defendem.

“Ambientes internos mais seguros são necessários não apenas para proteger as pessoas não vacinadas e aquelas para as quais as vacinas falham, mas também para deter as variantes resistentes às vacinas ou novas ameaças que podem aparecer a qualquer momento”, afirmam.

Por G1

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