Arroz por Bourbon

 Arroz por Bourbon

(Foto: Gustavo Azevedo)

Arroz, arroz, arroz.

Quer pedir a mulher/homem em casamento e fazer uma grande demonstração de amor? Troque os diamantes do anel e, no lugar, coloque 5 grãos de arroz cravejados.

Casamento tem aquela tradição de jogar arroz nos recém-casados, pois bem, no meu casamento acho que já vou levar uma bacia para juntar.

Espetinho de arroz.

Colar de arroz.

Antigamente quando as visitas chegavam em casa, dizia-se: vou colocar mais água no feijão, pena que não dá para fazer o mesmo no arroz, ele seca ou empapa.

Éramos felizes e não sabíamos, quando pedíamos um PF, metade era arroz. Hoje o PF (prato feito) custa R$ 9,99. Ou R$99,99 se vier com arroz.

Demonstração de amor atualmente é chegar no ouvido da mulher/homem e sussurrar: “Vem, eu pago um pacote de 5 kg Koblenz!” (alô Koblenz me patrocina, aceito o pagamento em arroz).

Tudo bem, eu já fiz muita zoeira e sei que você veio até aqui esperando ler um bom artigo, e eu estou tomando o seu tempo. Como dizia aquele velho ditado: Tempo não é dinheiro, é arroz.

Uma última: vocês notaram que dos nomes de marcas de arroz são “Tio”?

Beleza, parei.

Antes que eu possa falar qualquer coisa, eu não sou uma cigana, mas vou jogar as cartas sobre a mesa (Alô Cristiano Neves! Quem pegou a referência, pegou).

E uma das cartas é uma navalha.

Segundo reportagem do ‘Fantástico’, o Auxílio Emergencial revelou 46 milhões de brasileiros invisíveis. Nesse pessoal aí, há pessoas que não possuem conta em banco, internet regular e nem CPF ativo.

Sabe a campanha do governo estadual de ‘Pede o CPF na nota’? Imagina a pessoa do caixa perguntar: CPF na nota? E a pessoa responder: não tenho.

Mas o que isso tem a ver com o Gohan? Referências, meus queridos e queridas.

Próxima carta: Bolsonaro relaciona aumento do arroz com o recebimento do auxílio emergencial.

Mourão diz que os R$ 600,00 fez o preço do arroz subir – e demais itens da cesta básica.

Ou seja, o auxílio emergencial de caráter social – isso, uma ação que ajuda o povão – que alcançou pessoas invisíveis, esquecidos pelo governo, ofertou a oportunidades destes de entrarem em um mercado e comprarem itens de cesta básica.

BÁSICA. BÁ-SI-CA.

A pergunta que me dá um nó na garganta: “Se o preço do arroz – e demais itens da cesta básica – subiu em decorrência da procura proporcionada pelos R$ 600,00 reais, o que essas pessoas comiam antes? Ou, com que frequência podiam ter acesso a uma cesta básica? A um pacote de arroz?

É isso. Acesso aos alimentos básicos. Alta dos preços. Soa como culpa, né?!

Vamos para mais uma carta. Outra navalha!?

Pandemia. Coronavírus. Home Office. Distanciamento social. Festas suspensas – ou deveriam ter sido suspensas.

Todos esses fatores remetem à ideia de que deveríamos ficar em casa. Em isolamento. E, de fato, muita gente ficou. As ruas ficaram visivelmente mais vazias. Ruas, antes movimentadas, pareciam cenas de The Walking Dead.

Até os ônibus foram reduzidos ou tirados da linha.

Com todos esses eventos somados, um produto em específico teve uma queda abrupta de preço. O combustível automotivo.

Em rápida busca pela internet é possível ver diversas notícias sobre tal queda.

E eu decidi fazer uma comparação entre a taxa de isolamento a nível Brasil com o histórico de preço do Etanol. Os dados foram inseridos a partir da primeira morte por COVID no Brasil.

  • Fonte: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) – ESALQ – USP
  • Fonte: Mapa Brasileiro da COVID-19
  • Obs.: os preços do Etanol não consideram impostos e frete, sendo o produto retirado na Usina

Pois bem, o que eu estou querendo mostrar com este gráfico é que, mesmo com aproximadamente 40% da população em isolamento, ainda não foi suficiente para derrubar o preço do Etanol.

Segundo levantamento da ANP – Agência Nacional de Petróleo …, no período entre 16/08/2020 e 22/08/2020, o preço médio do Etanol, em litros, estava em R$ 2,56. E segundo o Waze (o app que eu uso para me locomover e fazer pesquisas de preços entre postos, pois passar de carro em cada posto para anotar o preço gasta combustível), o preço do etanol chega ao patamar de R$ 2,77.

Resumindo e concluindo. É, meu parceiro. O arroz bem procurado aumentou, e a culpa é … dos invisíveis! E o Etanol e demais combustíveis, que são utilizados para abastecer os carros daqueles que tem CNH, e que quando passam no caixa do supermercado tem um CPF para informar, mesmo tendo queda no consumo, também subiu.

Não sei. A priori, posso estar errado, profundamente errado, mesmo assim quero levantar a discussão. Parece-me uma tentativa de fazer permanecer invisível quem hoje é visto.

 Além disso, há algumas notícias dando conta que a proposta do governo para o reajuste do salário mínimo de 2021 é aumentá-lo para R$ 1.067. Atualmente o valor é de R$ 1.045.

Eu ri – para não chorar.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que os preços deverão se equilibrar apenas em janeiro, com a safra.

Pensando aqui com os meus pensamentos pensantes. Responda-me se possível: Você já viu algum produto voltar ao preço anterior após uma alta? Eu nunca.

Fazendo um menos o outro, o salário será aumentado em R$ 22,00 reais. Pega esse aumento e vê se você compra um pacote de 5 kg de arroz hoje no supermercado.

Antes tarde do que mais tarde, já indo para o fim do artigo. Tenho que admitir que existem outras componentes no preço do arroz, tais como impostos, taxas, aumento do dólar (desvalorizando o real) que fez o produto ficar mais barato no mercado mundial.

A China, por exemplo, saiu as compras para fortalecer os seus estoques. Estoque que o Brasil deveria ter, é bíblico, até José tinha estoque de trigo para quando a fome viesse.

Há, ainda existe a notícia que o arroz orgânico produzido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Rio Grande do Sul, manteve o preço do grão a preço justo.

No final das contas, a fome não pode esperar, pena que neste cenário, a fome de alguns, infelizmente, espera, em detrimento da gula de outros.

E a culpa é de quem? Eu digo “Auxílio” e vocês “Emergencial”. Por favor, né?!

Última carta.

O presidente da ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados, após encontro com Bolsonaro, sugeriu a substituição do arroz por massas – macarrão.

Pensem comigo, se as pessoas realmente substituírem o arroz por macarrão. A demanda por esse produto vai aumentar, e sob esse prisma, o preço também. E o que virá depois?

Não sei quem sugere substituir as massas por mangas.

Pelo menos tenho pé de manga em meu quintal.

Se fosse umas mangas Bourbon, eu até pensava no caso.

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