Bolsonaro quer ser o novo “Manda Brasa”

 Bolsonaro quer ser o novo “Manda Brasa”

Foi um militar-político quem explicou, em 1966, o conceito tupiniquim para aquilo que hoje chamamos de “centrão”. “Um partido de centro é formado com a esquerda da direita e a direita da esquerda”, revelou Ernani do Amaral Peixoto durante a lavratura do registro oficial do Movimento Democrático Brasileiro, o famigerado MDB, naquela época apelidado por seus filiados e militantes como “Manda Brasa”.

 

A aglutinação de forças políticas tão díspares tinha objetivo claro: chegar aos píncaros do poder. Apesar de ter nascido a partir de uma ala dissidente do PTB, em pouco tempo o MDB foi capturado por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves — oriundos do PSD — e ganhou corpo com nomes como Mário Covas, Franco Montoro, Moreira Alves, Oscar Passos, Chagas Freitas e o próprio Amaral Peixoto.

 

Entre 1966 e 1979 prevaleceu o bipartidarismo no Brasil: de um lado os oposicionistas do MDB; de outro, a situacionista Aliança Renovadora Nacional (ARENA), depois chamada de Partido Democrático Social (PDS) e, mais tarde, Partido da Frente Liberal (PFL), hoje Democratas (DEM).

 

Com redemocratização na década de 1980, políticos dos dois espectros começaram a alimentar o sonho de fazer chegar à Presidência da República uma chapa MDB-PFL, o que viria a acontecer com a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney. Mas, a união teve fim antes mesmo da posse, com a morte do cabeça de chapa e a assunção de Sarney, após duelo brutal nos bastidores com o emedebista Ulysses Guimarães. Desse arranca-rabo nasce o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que viria também a preterir o MDB em 1994, ao formar a chapa vitoriosa de Fernando Henrique Cardoso e Marco Maciel, do PFL.

 

O tempo não para… e o MDB, apesar de ter se tornado o maior partido do Brasil, conseguiu, no máximo, chegar à Presidência de forma tergiversa com Michel Temer, tampão para o mandato cassado da petista Dilma Rousseff, e amargar a derrota acachapante de Henrique Meirelles em 2018. Até hoje, o partido alimenta o sonho de chegar ao Palácio do Planalto em “mandato cheio”, com a cabeça de chapa, consagrado pelas urnas nacionais.

 

Neste momento, o foco emedebista tem nome: Jair Bolsonaro. Sem partido desde o rompimento com o PSL e sem conseguir fundar sua própria “aliança”, o atual presidente da República também parece estar convergindo com os desejos do MDB. Bolsonaro quer ser o novo “manda brasa” e não será um espanto, portanto, se disputar a reeleição em 2022 pelo “partidão” do doutor Ulysses e tendo como vice alguma figura de proa do DEM, saciando assim o desejo de quase quatro décadas da “esquerda da direita e a direita da esquerda”, vulgo “centrão”.

 

É exatamente essa conjuntura escalafobética que levou Jair Bolsonaro a assumir uma postura pública onde finge não ser casado com o fascismo verde-e-amarelo que emergiu dos esgotos da sociedade, para poder flertar com a cúpula emedebista do “grande acordo nacional” — aquele, “com Supremo, com tudo!” — e tentar uma amásia com a turma do DEM, que andava amarrada aos delírios de poder de Rodrigo Maia.

 

Note-se: a polêmica indicação ao STF — chancelada pelos caciques do MDB — e até a operação da Polícia Federal que culminou em uma cueca recheada do DEM têm relação direta com os arranjos que estão sendo costurados no submundo planaltino. O presidente da República, que nunca conseguiu despir-se do uniforme de baixo clero, parece ter mergulhado de cabeça nessa piscina inglória e não menos reacionária, mandando brasa. Está em casa, convenhamos.

 

Resta-nos lembrar Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades…”, que acabou imortalizando em música uma imagem que jamais deixou de exibir o quer se tornou a política brasileira: “A tua piscina está cheia de ratos!”

 

HELDER CALDEIRA é escritor, jornalista político, advogado em formação e pós-graduando em Investigação Forense, Direito Civil e Penal e Ética e Filosofia. É autor dos romances “Águas Turvas” e do recém-lançado “(Quase) Borboleta”, ambos publicados pela Editora Quatro Cantos. Vive bem entre cachorros e gatos, mas tem intolerância à lactose e a corruptos. Contato e palestras: helder@heldercaldeira.com.br

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