O que elas pagam

 O que elas pagam

As mulheres eram adstritas ao ambiente doméstico familiar. Hoje, não mais! É inimaginável pensar no mundo sem a contribuição delas em todos os locais. Contudo, ainda são reféns, e isso é plenamente possível de se averiguar, pois acabam ‘pagando’ para estar em todos os lugares. Qual o preço?

Clarissa Pinkola Estés, em ‘Mulheres Que Correm Com os Lobos’, discorre sobre os arquétipos de mulheres, afirmando que a mulher selvagem foi sufocada e mascarada no decorrer do tempo pela sociedade patriarcal.

Sempre tentaram fazer do ‘ser mulher’ um ser domesticado, retirando, ou melhor, ‘furtando’ o que lhes é natural, para fazer surgir aquela que a tudo aceita, para agradar aos outros.

Assim, existe um enorme temor em se libertar, por inúmeros sentidos. Seriam elas reconhecidas como difíceis? Estariam a representar aquelas que a tudo se queixam, as queixosas? Deixariam de serem as ternas e dóceis mulheres? Não seriam boas mães por absoluta falta de tempo? O que as faz ter tanto medo da verdadeira libertação?

As mulheres foram e são permissivas com a destruição dos seus próprios sonhos. Aceitam primeiramente fazer a vontade dos filhos e filhas, ou do companheiro, para depois, em sobrando tempo, realizar os próprios sonhos. Sufocam as vontades dentro de uma caixinha, realizando os desejos de todos e todas à sua volta, para somente em restando possibilidades, extravasar os seus desejos.

Quantas mulheres acabam por ‘barganhar’ as suas vontades? Sim, para que possa trabalhar ou estudar, primeiramente atende aos reclamos dos que estão à volta. Explico.

Como se fosse uma troca, um pagamento. Elas fazem tudo em casa, deixam tudo perfeito, para que não ocorram reclamações de que estão me dedicando a outra coisa, que não as atividades domésticas. Primeiro, elas precisam cumprir com as ‘obrigações’ impostas naturalmente e, também, coercitivamente, para, somente após, realizarem outras atividades inerentes ao ‘mister’ doméstico.

Rita Laura Segato diz que os homens cobram tributo para garantir às mulheres a inclusão nos grupos. Afirma mais, que esse ‘tributo’ é como um símbolo da dominação, devendo ser ‘pago’ em atenção.

E essa ‘atenção’ seria: afeto, controle sexual e serviços domésticos. O homem é enxergado como homem, com ‘H’, se existem mulheres a lhes prestar alguma forma de serviço. A masculinidade fica colocada à prova se mulheres não se encontram ao redor desse ser humano a lhes prestar serventia.

Percebe-se que as estruturas que cercam todo esse circuito, trazem o malfadado ‘aprisionamento feminino’ travestido da forma que elas devem ser e se portar, aliado ao ‘mentiroso’ carinho, cuidado, atenção, e por aí afora.

Elas ficam nas ‘teias’ familiares e nos relacionamentos amorosos, mesmo tendo a certeza de que estão corretas em buscar a verdadeira liberdade em ser, estar, agir e prosseguir.

Fico com Ângela Davis: “Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo.”

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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Roger - Mais Que Fato

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