Paciência…

Antes de chegar em casa, tirei a bermuda, a camiseta e a cueca. O que a vizinha vai pensar não me interessa. Fui direto para o chuveiro. Abri a torneira, tomei um banho que parecia não ter fim. Assim que saí do quadrilátero, após enxugar o corpo, lembrei que toquei no puxador do box e fui lavar as mãos. Lavei a palma, os dedos, o verso, as unhas, o pulso, lavei o dedão como se desse brilho no velho faqueiro de prata. Fechei a torneira e vi que havia ali outro problema: toquei na torneira com a mão que julgava contaminada. Paciência… Repeti o processo. Dessa vez, entretanto, deixei a água caindo na pia até que abrisse o armário, pegasse uma toalha de rosto e, com ela, pudesse fechar a torneira. Enfim, limpo! Para descartar as roupas que deixei na portaria calcei as luvas, peguei um saco plástico e enfiei nele tudo o que havia usado para ir à padaria: bermuda, camiseta, cueca e os chinelos que nem eram tão velhos. Paciência… Algum dia iria comprar tudo de novo. O problema agora era com o saco de pão. E se alguém da padaria estivesse contaminado? Fiquei preocupado porque a mulher do caixa parecia estar gripada. Além do mais, não usava máscara ou luvas. Nem touca no cabelo aquela mulher usava! Acabei não fazendo o dejejum. Preferi esperar 24 horas para que o vírus morresse. Dizem que não dura mais que isso. No dia seguinte, o pão estava murcho. De qualquer forma, era melhor murcho do que contaminado. Coloquei duas bandas do pãozinho francês direto na frigideira com azeite e sal. Desde criança, adoro pão com azeite. Comi tudo. Poderia ter poupado. Paciência… Sou um homem forte. Só não me tornei atleta porque decidi ser político. Se me arrependo? Nenhum pouco. O que mais sinto falta é de contato com os colegas do parlamento, aquela ebulição de gente gritando como numa feira livre. Hoje é tabu cumprimentar alguém. Costumo me atrapalhar de vez em quando e acabo cedendo aos velhos hábitos. Quando voltei a sair para o mercado, por exemplo, uma das minhas eleitoras, velhinha de dar pena a coitada, me deu um beijo. Um beijo, vejam que disparate! Cheguei em casa empelotado de preocupação. Quando fico nervoso, minha pele explode em acne. Deixei a roupa na portaria e entrei pelado para tomar outro banho daqueles. Não havia álcool em casa. Paciência… O jeito foi usar água sanitária. Eu não me lembrei de diluir em água. Gastei meio litro de água sanitária para desinfetar a cara. Chorei de dor. A ardência do líquido era insuportável. No espelho eu mais parecia um peru de tão vermelho. O que resolve?, pensei. Enchi o saco plástico do mercado com gelo que peguei do freezer. Depois que senti o alívio, fiquei aterrorizado. Era o saco do mercado, um saco contaminado, repleto de vírus! Recolhi a roupa de cama, o saco, o gelo e coloquei tudo no lixo. Entrei correndo na ducha, esfreguei a cara com sabonete e, depois que saí, passei pomada para ver se melhorava. Não melhorou. A queimadura era grave, talvez de segundo grau. Como ir ao hospital? Não fui. Liguei para o meu vizinho. Era médico. O senhor está gripado?, ele me perguntou. Canalha egoísta! Deveria vir ao apartamento sem fazer perguntas indiscretas. Eu não sei se estou ou não estou infectado, respondi. O problema é que me queimei. Percebi que ele ficou aliviado. Vá à farmácia, ele me disse passando o nome do remédio. Felizmente, achei álcool em gel. Acabara de chegar. Comprei quatro unidades. Dei uma gorjeta para o rapaz do balcão para que ele me deixasse comprar o dobro da cota. Ao chegar em casa, a minha vizinha estava com a porta aberta. Não deixou que eu tirasse a roupa. Aos gritos, ameaçou chamar a polícia. Pior: ameaçou tirar uma foto minha. Seria o fim da minha carreira. Paciência… Entrei em casa com a consciência de estar completamente contaminado. Sentei-me no sofá empoeirado da sala, esparramei pelo corpo o creme transparente das quatro garrafinhas de álcool gel, acendi um cigarro e, depois da terceira tragada, deixei que a brasa cintilante encostasse na minha calça e exterminasse o vírus. Paciência…

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

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