Que Deus proteja o Brasil

 Que Deus proteja o Brasil

Logo após a decisão do Chile em fazer um plebiscito para definir uma nova Constituição, eu publiquei numa rede social sobre a chance de o movimento chegar ao Brasil, algum tempo depois. Na publicação, eu dissera que nossas Excelências já deveriam colocar as barbas de molho para um movimento semelhante.

Tolinha, eu.

Menos de 24 horas depois, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros, jogou a isca. Aquela jogada política manjada, que já não engana nem criancinhas inocentes: joga-se no ar uma ideia para sentir como reage a opinião pública. Um termômetro para nossas Excelências, tão bem intencionadas.

Barros propôs uma nova Constituinte! Justamente o líder do governo Bolsonaro na Câmara, que justificou sua proposta dizendo que a atual “só tem direitos”.

A ideia soa como música aos ouvidos menos atentos. Afinal, 32 anos depois da instituição da última Constituinte, tão esperada e festejada, o país se vê atolado em profunda insegurança jurídica, onde os bandidos (ricos) usufruem de um arsenal infinito de recursos para se manterem livres da lei.

Feita sob medida para proteger os direitos civis daqueles que se insurgiram contra a ditadura, a Constituição de 1988 colocou tudo dentro do mesmo saco. O que se vê, hoje, é um Poder Judiciário esfacelado, que dá guarida a toda sorte de crimes e atos infracionais, dependendo do poder de fogo financeiro do réu para enfrentar anos, muitas vezes décadas, de medidas recursais.

Será mesmo que a Constituição de 88 protegia apenas os rebeldes contra a ditadura, ou foi a tempestade perfeita para dar à classe política brechas que conferem poderes ilimitados às Excelências dos três poderes?

Se atentarmos para a lista dos Constituintes da época a dúvida praticamente desaparece.

Voltemos então ao tão bem intencionado líder Ricardo Barros, ele mesmo investigado por suspeita de corrupção com valores milionários, alvo de operação da Polícia Federal, recentemente. E, claro, livre, leve e solto.

É desse tipo de direito excessivo que reclama Barros? Ou ele foi o mensageiro de um governo que adoraria ampliar seus poderes e, diante da bola levantada pelo Chile, resolveu testar o nível de atenção da galera?

Para o País, uma nova Constituição seria o único recurso capaz de por fim a uma sequência interminável de crimes do colarinho branco, que corrói a economia e faz os pobres sustentarem a vida nababesca dos corruptos inescrupulosos.

A corrupção impune que tira recursos da saúde, da educação, da infraestrutura, de todos os setores que fariam deste País uma das nações mais poderosas do mundo.

Mas essa ideia só tem um probleminha: quem seriam nossos ilustres Constituintes?

Quem sabe Ricardo Barros já não seja um dos candidatos? Ou quem sabe, ainda, a trinca de filhos do presidente da República, ou o ministro Gilmar Mendes? Que tal Marco Aurélio de Mello, que tem predileção por soltar narcotraficantes de reputação internacional?

Que tal o presidente da Procuradoria Geral da República, Augusto Aras, tão próximo das teorias presidenciais? Poderíamos, também, repatriar o guru da família, Olavo de Carvalho, para dar sua contribuição, por que não?

Ops, esqueci do presidente da OAB, um personagem intrigante da nossa história, que gosta de chamar advogadas de puta, por exemplo.

Fernando Henrique Cardoso usava muito o recurso de jogar iscas quando queria saber como determinadas ideias seriam recebidas pelos diferentes setores da sociedade. Fazia-o com certa classe, usava engenharia política, um pouco mais de inteligência.

Jair Bolsonaro mete logo o pé na porta e manda logo seu líder de governo fazer a sondagem, que ainda repete ad-nauseam que a iniciativa foi dele, pessoal e intransferível. Ok, ficamos combinados assim.

Silvana Destro é Mãe do Pedro e do João, avó da Maria, jornalista, empresária no setor de comunicação corporativa, especialista em gestão de crises e palestrante.

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