‘Uma força que nos alerta’

 ‘Uma força que nos alerta’

Para a última coluna de maio, uma nota a Maria. “Minha filha, você sabe viver”. Ela me disse, assim meio do nada, numa de nossas despedidas. Vez por outra, quando duvido de mim, do saber e da vida, puxo da memória essa fala solta. Uma fala que me prende de novo ao meu trilho. “Sei nada, vovó, tu que sabe”. Devo ter dito. Se não disse, deveria.

 

A vida foi desafiadora, grande e, ao mesmo tempo, doce para Maria. Teve 13 filhos. Zélia, Jaime, Fred, Maria, Pedro, Ana, Ruth, Maria Helena, Eduardo, Casimiro, Marta, Dulce e Ana Lúcia. Eu, que tenho duas – e nunca diria só duas, porque é tanto, e é em si tão intenso conjugar o verbo ter e associá-lo às ‘minhas’ duas – digo, sem nenhuma dúvida, que foi uma vida de muito trabalho.

 

Nasceu, portanto, e não por acaso, no dia do trabalho. Mas não era somente o trabalho que a definia. Maria era da festa, do brincar, do desejo e – como não? – do amor. Já velhinha, cabelo prateado impecável, cheirando a colônia suave – e eu amo essa palavra por causa dela -, bracinhos no ar, levantava da cadeira branca, no terraço de Casa Forte, e cantava sem economizar uma única nota: “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

 

Nos natais daquele terraço, montava um presépio enorme. Cada carneirinho trazia o nome de um de nós. Ela observava, fingindo não ver, a nossa brincadeira de transportar os carneirinhos para mais perto do menino Jesus. Os primos, deixávamos lá longe, com as vaquinhas e os outros bichos. Aí era só chegar o primo pra desfazer o cenário e se colocar ao lado da manjedoura. O mês inteiro essa disputa. Havia até quem desse uma sumida temporária no carneirinho do outro. Nos maiores, que traziam seu nome e o de Fred – a quem chamava de filhinho -, ninguém mexia. Não por falta de coragem ou excesso de respeito, mas por saber que se havia alguém ali merecedor da vizinhança sagrada, esses alguéns, eram eles.

 

Dezembro também era tempo do jogo da florzinha para Nossa Senhora. Para cada boa ação feita pelos netos durante o mês, ela marcava no caderno um ponto. No dia 24, distribuía um vasinho que continha uma flor para cada ponto, flores colhidas por ela. E nos prometia que entregamos aquela mesma quantidade de flores (simbolicamente) à santa.

 

Inventou o melhor lanche das férias: torrada com queijo La Marie – era manteiga e queijo ralado num potinho de cristal quando acabava o requeijão. Dizia “leve, é seu” para qualquer objeto que elogiávamos. Podia ser um bibelô, um casaquinho, uma lata de biscoitos, tudo era nosso. Escreveu um livro de memórias, com direito a noite de autógrafos, aos 81. Danada. Nesse fim de maio de luta e esperança, ainda que pequena, dou vivas a Maria. Essa soube viver.

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br   

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